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Analfabetismo Funcional no Brasil: o desafio de compreender o que se lê

Analfabetismo funcional no Brasil: o desafio de compreender o que se lê

O analfabetismo funcional no Brasil é um dos grandes desafios educacionais e sociais do país. Embora milhões de brasileiros tenham passado pela escola e saibam decodificar palavras e frases, muitos ainda encontram dificuldades para compreender textos, interpretar informações e utilizar a leitura de forma autônoma no cotidiano.

Além disso, o problema vai além da sala de aula. A capacidade de compreender aquilo que se lê influencia o acesso ao trabalho, à informação, aos serviços públicos, aos direitos e à participação consciente na sociedade.

Ao mesmo tempo, o Brasil também permanece marcado por profundas desigualdades sociais e regionais. A CEPAL destaca a persistência da desigualdade na América Latina, contexto que ajuda a compreender por que as oportunidades educacionais e os resultados de aprendizagem ainda são tão diferentes entre grupos e territórios.

Analfabetismo funcional no Brasil: os números que explicam o desafio

O debate público muitas vezes se concentra em matrículas, frequência escolar e acesso à escola. Embora esses indicadores sejam importantes, existe uma questão ainda mais fundamental:

O que a pessoa realmente consegue fazer com aquilo que aprendeu?

Segundo o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), em sua edição de 2024, 29% da população brasileira de 15 a 64 anos está na condição de analfabetismo funcional.

29%
analfabetismo funcional
35%
alfabetismo consolidado

O analfabetismo funcional não significa necessariamente que a pessoa seja incapaz de reconhecer letras ou ler palavras. Na prática, o conceito envolve dificuldades para utilizar a leitura, a escrita e outras habilidades de forma suficiente para responder às demandas da vida cotidiana em uma sociedade letrada.

Por isso, é importante distinguir analfabetismo absoluto de analfabetismo funcional. São problemas relacionados, mas diferentes.

Além disso, dados do IBGE mostram que, em 2024, havia aproximadamente 9,1 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabiam ler e escrever, correspondendo a 5,3% dessa população.

7%
analfabeto
22%
rudimentar
36%
elementar
25%
intermediário
10%
proficiente

Como interpretar esses dados: os níveis analfabeto (7%) e rudimentar (22%) formam o grupo de analfabetismo funcional, que corresponde a 29% da população de 15 a 64 anos. O nível elementar (36%) não é classificado como analfabetismo funcional, mas apresenta limitações importantes diante de situações que exigem maior compreensão e uso das informações. Os níveis intermediário (25%) e proficiente (10%) formam o grupo de alfabetismo consolidado, que corresponde a 35%.

Fonte: INAF 2024 — Indicador de Alfabetismo Funcional. Os percentuais referem-se à população brasileira de 15 a 64 anos.

Por que o analfabetismo funcional perpetua desigualdades

Uma pessoa que encontra dificuldades para compreender textos, instruções e informações tem maior dificuldade para exercer plenamente sua autonomia. Consequentemente, isso pode afetar diferentes dimensões da vida:

  • Mercado de trabalho: dificuldades de leitura e interpretação podem limitar oportunidades profissionais e o acesso a qualificações.
  • Acesso à informação: compreender notícias, contratos, instruções e documentos é fundamental para tomar decisões com autonomia.
  • Acesso a serviços: saúde, bancos, órgãos públicos e outros serviços dependem cada vez mais da capacidade de compreender informações escritas.
  • Participação cidadã: a compreensão de informações públicas e políticas é importante para o exercício consciente da cidadania.
  • Desigualdade social: quando as oportunidades de aprendizagem são desiguais, as diferenças sociais tendem a se reproduzir entre gerações.

O nível elementar também merece atenção:

Embora os 36% no nível elementar não sejam classificados como analfabetos funcionais, esse grupo ainda apresenta limitações importantes diante de textos, informações e situações que exigem maior compreensão. Por isso, o enfrentamento das desigualdades educacionais não deve se limitar aos 29% em situação de analfabetismo funcional, mas também considerar a necessidade de ampliar as habilidades de leitura e compreensão daqueles que permanecem nos níveis mais básicos de alfabetismo.

36%
nível elementar
25%
nível intermediário
10%
nível proficiente

O papel das igrejas evangélicas e católicas

Igrejas evangélicas e católicas possuem uma presença comunitária que pode contribuir para enfrentar o analfabetismo, especialmente em regiões periféricas, áreas rurais e comunidades vulneráveis.

Nesse sentido, essa atuação não precisa substituir o poder público. Pelo contrário, pode somar esforços e ampliar o alcance de iniciativas educacionais.

Entre as possibilidades estão:

  • alfabetização de adultos e idosos;
  • leitura orientada e interpretação de textos;
  • ensino de matemática básica aplicada à vida cotidiana;
  • formação de voluntários e multiplicadores educacionais;
  • criação de espaços comunitários de aprendizagem;
  • valorização da educação como instrumento de dignidade e transformação social.

O Projeto ALFA e a continuidade da alfabetização

Nesse contexto, iniciativas da sociedade civil também podem contribuir para enfrentar o analfabetismo e ampliar as oportunidades de aprendizagem.

É nesse cenário que se insere o Projeto ALFA – Alfabetização pela Bíblia, cuja história remonta a 1962, na Escola John Ongman, em Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul, sob a liderança do pastor Gilberto Stêvão.

Desde sua origem, o método utiliza a Bíblia como cartilha, associando o processo de alfabetização ao contato com textos bíblicos. Ao longo de sua trajetória, o projeto alcançou diferentes regiões e contou com milhares de monitores e voluntários.

Além da alfabetização inicial, o Projeto ALFA também trabalha com a pós-alfabetização, buscando estimular a continuidade da leitura e o desenvolvimento da compreensão.

Classe Gênesis

A Classe Gênesis está voltada para a alfabetização inicial. É o começo da caminhada, quando o aluno aprende os fundamentos da leitura e da escrita.

Classe Pós-Alfa

Em seguida, a Classe Pós-Alfa dá continuidade ao processo, fortalecendo a leitura, a escrita e a compreensão dos textos. O objetivo é ajudar o aluno a avançar além da simples decodificação das palavras.

Projeto Filipe

Da mesma forma, o Projeto Filipe amplia essa proposta de continuidade da leitura e da compreensão. Sua inspiração está no relato de Atos 8:30, quando Filipe pergunta ao etíope:

“Entendes tu o que lês?”

Combater o analfabetismo funcional é decisivo para a democracia

Uma democracia depende de cidadãos capazes de acessar informações, compreender diferentes pontos de vista e participar das decisões que afetam suas vidas.

Por essa razão, não basta ensinar alguém a decodificar palavras. É preciso ajudá-lo a compreender o que lê e utilizar esse conhecimento para viver com mais autonomia.

Assim, combater o analfabetismo funcional no Brasil é também fortalecer a cidadania, reduzir desigualdades e ampliar as possibilidades de participação social.

Conclusão

O Brasil não enfrentará o analfabetismo funcional apenas com discursos políticos ou com o aumento genérico de investimentos.

Nesse sentido, é necessário garantir que crianças, jovens e adultos tenham oportunidades reais de aprender, compreender e utilizar aquilo que leem.

O desafio é grande, mas não é impossível. Ao mesmo tempo, a alfabetização pode abrir a primeira porta. A continuidade do aprendizado pode abrir muitas outras.

Ensinar a ler é apenas o começo. Ensinar a compreender é preparar para a vida.

Os dados apresentados neste artigo têm como base levantamentos e estudos de instituições nacionais e internacionais reconhecidas, entre elas INAF, IBGE, CEPAL, OCDE e UNESCO.

Fontes

  • INAF – Indicador de Alfabetismo Funcional – Instituto Paulo Montenegro / Ação Educativa.
  • IBGE – PNAD Contínua – Educação e indicadores de alfabetização.
  • CEPAL – Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe.
  • OCDE – Education at a Glance.
  • UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

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